quinta-feira, 27 de setembro de 2012

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Coletânea de imagens que inspiram, classificam, colorem, emplastificam, e outras ações.







(fonte: Tumblr)

Ensaio sobre “Identidades”, Kaboom e uma psicodélica jornada.

O que será que nos dá direito de insultar a/o outra/o? Quais seriam as convenções de gênero e quais normas nos apresentariam fundamentos suficientes para classificar cada (e todo) indivíduo em uma gaveta estereotipada e lacrada? A Teoria Queer apresenta um olhar crítico sobre as normas e a convenção de gêneros que exercem poder, permitindo o processo classificatório cruel que em seguida gera o ‘direito de punir’. Estudar este processo é muito importante, “seja daquele que rejeitado e aprendeu que não era normal, seja de quem adotou às normas e se inseriu socialmente de uma maneira mais fácil”. (MISKOLCI, 2012, p. 37) 

Quais seriam essas classificações e onde se iniciaria esse processo tão cruel ao indivíduo? Em “Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças” o sociólogo Richard Miskolci (2012) nos apresenta a ideia, inicialmente observada pelo sociólogo Erving Goffman nos meados do século XX, de que na escola, durante o processo de normalização, entraríamos em contato pela primeira vez com a sociedade e suas demandas aonde esses ideais coletivos começam a aparecer como imposições. Tendo em vista o cenário escolar podemos associar estas questões ao longa-metragem Kaboom, do diretor e roteirista Gregg Araki participante do Novo Movimento de Cinema Queer de 1990. Trabalhando a anormalização do considerado normal, Kaboom desenvolve a abjeção do heteronormativo, da transformação de um extremo ao outro e no intermediário (o indeciso). 


Os personagens de Kaboom aparentam características estereotipadas sobre gêneros sexuais. Temos o másculo heterossexual, o desajustado afeminado homossexual e outras identidades sociais oclusas e brutas, porém não existe dualidade no conteúdo dos personagens. Não há preto e branco na essência dos personagens de Gregg Araki e sim vários tons de cinza. Ninguém em Kaboom é inteiramente heterossexual/homossexual. 

Smith  e London, interpretados por Thomas Dekker e Juno Temple respectivamente.

O protagonista Smith tem uma postura de uma falsa liberdade onde o mesmo afirma “não acreditar em classificações sexuais padronizadas” mas suas atitudes contradizem o seu discurso; Smith é descrito como “ambisexual” (ambiguossexual em tradução livre). Em contraponto com essas “complicações discursivas” de Smith, temos London que surge para expressar ao protagonista que “a vida não precisa ser complicada, muito menos o sexo”. Liberta de posturas firmes ou discursos fechados, London é a personagem que transita livremente pelas classificações normativas e anormativas; ela afirma que “hetéros são mais gays que os próprios gays. O fato deles estarem apaixonados uns pelos outros e não poderem chupar o pau do outro os faz agir mais bichas* que Clay Aiken**” e sempre está disposta a apresentar supostas pesquisas que comprovam a falha nas classificações estereotipadas e cruéis que convivemos diariamente. 


Há um interessante olhar em Kaboom que descontrói a visão monocromática das ordens arquitetônicas que constroem os gêneros de maneira rígida. Esse olhar nos aproxima do “mundo heterossexual” que, de tão perto visto de fora de sua orbita, não parece ser “hetero” o quanto pregam seus participantes. O fato de estranharmos visões tão firmes sobre sexualidade quando vistas de tão perto nos esclarece que muitas vezes associamos sexualidade apenas com relações sexuais, porém “sexualidade também envolve desejo, afeto, autocompreensão e até a imagem que os outros têm de nós.” (MISKOLCI, 2012, p. 39) 

Vemos a sexualidade como uma parte intima de nós mesmos, muitas vezes até secreta, por isso quando confrontados (ou quando presenciamos outros sendo confrontados) tendemos a nos vigiarmos mais e nos vemos intimidados pela ordem social que impõe que nossa sexualidade deve ser tratada há sete chaves, silenciada e ilegítima. 

Thor, interpretado por Chris Zylka.

Thor, colega de quarto de Smith, ilustra perfeitamente esse pensamento. O personagem seria a personificação do “machão heterossexual”. Ignorante, pegador e de personalidade escancarada, bruta, que pratica brincadeiras de luta só de cueca som seu melhor amigo (também machão heterossexual) Rex. Extremamente preocupado com sua aparência, Thor se aventura com seu próprio corpo quando expressa sua vontade de praticar sexo oral em si mesmo e afirma já ter provado seu próprio sêmen; “Que não é ruim e tem um gosto abaunilhado” ele diz. E ilustrando o olhar cotidiano que nos vigia e pune, sempre disposto a nos inspecionar de maneira minuciosa de forma rígida e até íntima (FOUCAULT, 1926), podemos classificar o misterioso grupo mascado com cabeças de animais de plástico. Sempre presentes e infiltrados nas rotinas dos personagens, disponíveis a acabar com qualquer um que ameace à ordem. 

Integrantes da "Nova Ordem", culto secreto que persegue o protagonista Smith durante todo o filme.


Podemos concluir com a frase “de perto ninguém é normal”, porque talvez este normal não exista e seja apenas uma falha classificação limitada do que realmente podemos ser ou nos tornar. 




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* “bicha” está relacionada a “queer” que também é utilizado como xingamento na língua inglesa 
** Clay Aiken é um cantor americano, ator, escritor e ativista dos direitos gays, que atingiu a fama ao participar do reality show ’American Idol’ em 2003.