sexta-feira, 5 de outubro de 2012

BOX//IMG: 06

Coletânea de imagens que inspiram, cantam, movimentam, praticam, e outras ações.

"Antony and The Johnsons - Cut the World" 

"PAG - The Lady is Dead"


"KAKKMADDAFAKKA - Touching"


"Scissor Sisters - Invisible Light"


"Balak - Call Me Maybay"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ensaio sobre Andy Warhol, A Banana e Erotismo.

O artista pop Andy Warhol se distanciou dos outros artistas do mesmo estilo pelo simples fator de experimentar. Sempre visando novas experiências entre a cultura, a publicidade, sexualidade e outros temas. Não é difícil encontra em seus trabalhos o discurso do sexo. Warhol não se intimidava e punha em pratica as relações de expressão artística relacionando a cultura pop, o desejo e o sexo. 

Andy Warhol em autorretrato com dos seus ícones mais famosos na pop art: a banana

Um dos símbolos imortalizados pelo artista é a banana. Utilizada de maneira crua, bruta, a banana se impõe como símbolo por si só. Seu formato fálico não precisa de legendas para que fique subentendido à relação da fruta com o “falar do sexo”.





Em Mario Banana (1 e 2) Warhol trabalha com o erotismo da banana. Insinuando, através da atuação de Mario Montez travestido de drag queen, o ato do sexo oral. Existem diferenças entre o primeiro e o segundo filme. O primeiro apresenta o ator de forma mais clara, ao interagir com a de maneiras mais rápida que a segunda, onde a edição de imagem está mais saturada, brincando com a percepção do espectador que acaba por se confundir se quem está a comer a banana seria na verdade uma mulher ou um homem. O fato de que existe uma possibilidade do público se excitar com a presença de alguém (de gênero/sexo desconhecidos) comendo uma banana aumenta a força das experiências que Warhol pretendia exaltar; em “Mario Banana” o sexo se apresenta como uma prática, algo que está em nossos olhos e pode ser apreciada e não um ritual secreto. 


Desde a Idade Média o sexo vem sendo posto em discurso. Nos últimos séculos esse discurso se dissipou e se expandiu por diversos lugares, como medicina, política, psicologia etc. Foucault (1985) ressalta que “[...] entre a objetificação do sexo nos discursos racionais e o movimento pelo qual cada um é colocado na situação de contar seu próprio sexo produziu-se, a partir do século XVIII, toda série de tensões, conflitos, esforços de ajustamento, e tentativas de retranscrição” e completa: 

“Em vez da preocupação uniforme em esconder o sexo, em lugar do recato geral da linguagem, a característica de nossos três últimos séculos é a variedade, a larga dispersão dos aparelhos inventados para dele falar, para fazê-lo falar, para obter que fale de si mesmo para escutar, registrar, transcrever e redistribuir o que dele se diz.” (1985, p. 35) 

Podemos presenciar isso em “Blow Job” filme mudo de 1954 em que, filmando apenas o rosto de um jovem rapaz, Warhol põe em discussão a verdadeira posição em que ‘falar sobre’ sexo é algo presente ao individuo atualmente. Sem mostrar qualquer cena, o espectador subentende que o rapaz está recebendo sexo oral de alguém. Não sabemos ao certo se um homem ou uma mulher, ou vários, mas com auxilio do título (que em tradução livre seria algo como “boquete” no Brasil) o imaginar completa as cenas e preenche as expressões faciais do rapaz com significado; ora de prazer, dúvida, desconforto e entorpecimento. 



Andy Warhol definitivamente se constrói no discurso do sexo ao abraçá-lo e, ao mesmo tempo, descartá-lo, contradizendo-se na modernidade em que, condenado à obscuridade, o sexo é valorizado como segredo. (FOUCAULT, 1985, p. 36)

BOX//IMG: 05

Coletânea de imagens que inspiram, avisam, apresentam, modificam, e outras ações.






Ensaio sobre Bastidores, o Poder e o Prazer

Existem diversas maneiras em que o poder (poder que controla, vigia e pune, que define quem e como devemos agir) exercer sua presença sobre nós. A maneira mais eficiente é atingindo nossa intimidade através da sexualidade. Ao alcança-la o poder consegue agir de maneira mais eficaz, podem aplicar facilmente suas exigências e, caso não sejam atendidas, suas cruéis penitências. Segundo Richard Miskolci explica porque o poder escolhe a sexualidade como meio de vigiar (e normatizar) as pessoas: 

“A sexualidade envolve desejo, afeto, autocompreensão e até a imagem que os outros têm de nós. A sexualidade tende a ser vista, por cada um de nós, como nossa própria intimidade, a parte mais reservada, às vezes até secreta, de nosso eu. Assim, não surpreende que a sociedade tenha encontrando nela um meio de normalizar as pessoas.” (2012, p. 39) 

Mas como o poder alcança o íntimo? Segundo Foucault (1926) o poder produziria uma saturação da sexualidade, oferecendo e incentivando suas diversas formas de desejo para que suas variedades se intensifiquem junto ao poder em si. Um dos meios que essa máxima saturação é produzida é o mercado de filmes pornôs. A venda de uma “hiper” prática do sexo, onde os desejos se tornam possibilidades (mais) reais e os corpos perfeitos desempenhariam com ciência todos os atos necessários para alcançar a realização, a satisfação do(s) indivíduo(s). 

O fotógrafo Ken Probst publicou em 1998 o livro “pôr´ne-graf´ik”, nele uma série de fotografias no estilo documental exibia os bastidores do cinema pornô-gay. O diferencial das fotografias é que, ao invés de intensificar o mundo da pornografia, os registros revelavam os verdadeiros acontecimentos das produções. 

Visão completa do complexo set de filmagem. A imagem retira a falsa sensação de intimidade que a prática do (hiper) ato sexual apresenta nas produções pornográficas.   
As fotografias apresentam cenas até cômicas dos sets de filmagens. Nelas podemos relacionar como o sexo se tornou uma produção industrial que, graças ao seu apelo intimista, funciona como ferramenta direta para a ação de atrair-intensificar-vigiar-punir. 

Cena de close onde apenas o ator em pé desempenha seu papel enquanto o companheiro de trabalho espera sua parte na produção. 
Contrarregra esperando pacientemente o começo/fim das filmagens, visivelmente cansado e/ou entendiado. 
A indústria pornográfica não seria mais nada além de outra produção como qualquer outra, sempre a favor do desejo e, assim, da normalização das pessoas. Mesmo que as produções fossem carregadas de fetiches, ações hiper-realistas e sexualidades anormais. Não existiria uma função aplicada do desejo e sim uma representação do mesmo, facilitando assim uma “cilada” para aqueles que se sentem abjetificados. 

Os contrarregras, os ajudantes de filmagem, os câmeras, os produtores e até os atores executam apenas suas funções como empregados/empregadores. De acordo com a demanda, as produções partiram de suas premissas individuais, e nada além de uma produção mercantil. 

Produtor dá dicas da melhor posição à um ator.
O poder, então, não poupa as mais diversas possibilidades para se impuser aos indivíduos. O poder “produz e fixa o despropósito sexual. A sociedade moderna é perversa, não a despeito de seu puritanismo ou como reação à sua hipocrisia: é perversa real e diretamente.” (FOUCAULT, 1926, p. 47)

Ensaio sobre Robert Gober, mistérios, classificações e imposições.

O artista contemporâneo Robert Gober é um dos artistas mais importantes vivos atualmente. Ele se tornou conhecido por suas grandes instalações com objetos cotidianos revisitados. Seu trabalho se apresenta de forma misteriosa que quando desvendadas descarregam questões politicas, sexualidade, natureza e religião. 

Dentro de suas instalações encontramos esculturas, objetos, e outras produções intrigantes. Sempre excitando o olhar do espectador para a descoberta de questionamentos e ideias que atingem o íntimo e incomodam. Há uma série de trabalhos que podemos relacionar com as mais diversas questões, mas a utilização (e a desconstrução) dos objetos cotidianos pode causar um estranhamento maior àqueles que presenciam as obras de Gober, facilitando a vontade de saber sobre os porquês e suas respostas. 


A série de pias de banheiro de Gober trabalha com diversas variações do um objeto tão comum aos indivíduos. Sempre presente nos banheiros, privados ou públicos, estamos sempre em contato com sua existência, mas o que poderia ser diferente se considerarmos a pia de banheiro como um ícone de sexualidade? 


Michael Foucault (1926, p. 39) nos apresenta ao termo “sexualidades periféricas” que seriam as sexualidades que se distanciam da sexualidade regular, (hetero) normatizada. Qualquer um que estiver em uma relação fora do “homem heterossexual + mulher heterossexual” se classificaria como adverso e ilegítimo. Gober apresenta um objeto diverso, mas ele representaria? Quem seriam essas pessoas que utilizariam essas pias? E qual é o seu gênero, seu sexo, seus desejos, suas práticas? Quem se “encaixaria” em algo tão esquisito? 




Esse ato definir o que algo é também tem forte influência na construção do individuo antes mesmo de que o mesmo venha a nascer. As limitações e expectativas são impostas com tanto rigor que toda a trajetória de vida, suas experiências, suas preferencias e seu destino final vêm de uma premissa rígida que deve ser cumprida a qualquer custo. 


A série de cercadinhos de Gober transporta-nos para um ambiente onde o processo de limitação e construção do corpo da recém-individua nas medidas adequadas. Quando perguntamos se o bebê é “menino ou menina?” ou quando afirmamos “é uma menina!” exaltamos diversas expectativas sobre a conduta sexual, sobre o gênero e outras características que não poderíamos exigir serem cumpridas. Guacira Lopes Louro diz (2004, p. 15 apud Judith Butler, 1993) “Judith Butler argumenta que essa asserção desencadeira todo um processo de ‘fazer’ desse corpo feminino ou masculino. [...] Afirma-se e reitera-se uma sequência de muitos modos já consagrada, a sequência sexo-gênero-sexualidade.”




Quem seriam essas crianças, "o que se tornariam" e te tipo de contrato social elas estariam "assinando" em seus berços retorcidos? As regras, o contrato previsto, supostamente não deixariam brecha para uma escolha, um conhecer verdadeiro liberto de olhares julgadores. Porém e caso o indivíduo não siga suas obrigações, desafie as normas e fuja do eixo comum de sexo-gênero-sexualidade? Como podemos representar no cercadinho aberto, socialmente, Louro (2004) nos alerta que a este individuo só cabem punições, sanções e exclusões. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

BOX//IMG: 04

Coletânea de imagens que inspiram, ensinam, embelezam, movimentam, e outras ações.








Ensaio sobre Um Bonde Chamado Desejo, metáforas e perversões.

Ao longo da história do cinema encontramos diversos personagens que nos parecem, familiarmente, estranhos. Em “A Streetcar Named Desire” (Um Bonde Chamado Desejo, mas chamado no Brasil de "Uma Rua Chamada Pecado") de 1951 Blanche DuBois se muda para morar com a irmã e o cunhado onde ela acaba por se perder em um furacão de emoções enquanto a realidade se torna mais confusa aos seus olhos. 


Existem relações no filme que subentendem conteúdos direcionados para um público não declarado, oculto e tido como incomum, o espectador homossexual. Desde a representação às formas de desejo, A Streetcar Named Desire oferece um vasto conteúdo semântico para conexões ao considerado incomum, desprezível e digno de imparcialidade ou ódio. 

Uma dessas representações se dá pelo personagem de Marlon Brando, Stanley. Sempre em conflito com a protagonista, Stanley é uma representação clara de um “objeto de sexualidade”, um incitador de desejo e emoções (tanto para a personagem Blanche DuBois tanto para o espectador). Existe uma realização do homem ideal, másculo e forte, que ao contrário da protagonista, feminina e fantasiosa, se obtém da tarefa insinuante do despertar sexual, de torna-se atraente às aqueles que se veem capturados pelo desejo. Desejo pela força, pela figura hiper-masculina de Marlon Brando, sempre disposta a enfrentar e mostrar quem é que manda, quem domina, quem é o macho forte, suado, sujo, impregnado pela virilidade, pela potencia e robustez do que chamamos ícone sexual de uma época no cinema. 


Essa representação é também utilizada pelo poder que age sobre a construção dos gêneros normativos. Michel Foucault nos apresenta em “História da Sexualidade” os meios pelo que o poder que nos controla se infiltra para se tornar mais eficaz. O poder que controla a sexualidade, o gênero e tantas outras peças dos indivíduos, se estende por si mesmo e se fortalece ao incitar a descoberta do “desejo proibido” para, através dele, possuir o individuo pelo julgamento de culpa; “O poder funciona como um mecanismo de apelação, atrai, extrai essas estranhezas pelas quais se desvela. O prazer se difunde através do poder cerceador e este fixa o prazer que acaba de desvendar”. (FOUCAULT, 1926, p. 45) 



A identificação ficaria pela personagem Blunche DuBois, que está sempre por desempenhar sua feminilidade. Ela pode ser considerada uma representação homossexual que não cabia ser apresentada de maneira crua no cinema da época, apenas insinuada e escondida. Os confrontos que a protagonista tem com Stanley representam bem as injurias que o homossexual afeminado recebe por desempenhar um gênero distorcido do heteronormativo. E, assim como imposto a mulher, o quanto mais perto do feminino mais desprezível seria o individuo. Isso está presente nas situações como quando Blanche é questionada sobre sua verdadeira identidade “como mulher” por seu envolvimento com um “jovem rapaz” que terminara em um final trágico devido a “descobertas” em que ambos passaram juntos e os fortes confrontos que elas causaram (podemos por em questão que essa descoberta seria o desejo homossexual e sua descoberta). Também vemos o desprezo com que ela é trata por Mitch, melhor amigo de Stanley, ao descobrir que Blanche não é “mais” mulher por seu passado sexual e sua idade “avançada” para tais aventuras. O fato de Blanche se por de forma extravagantemente afeminada, extremamente fantasiosa e, até certo ponto, firme em sua “performance de gênero”, acaba em entrando em conflito com o que é imposto pelo poder (Stanley sendo essa representação) onde o correto seria a forma “comportada”, um perfil de gênero esperado com desejo reprimido e conformista com as normas socialmente impostas. (MISKOLCI, 2012, p. 32). 


Precisamos, quando nos tornamos cientes dessas formas que o poder nos controla, questionar quais nossas verdadeiras vontades e quem realmente decide e/ou impõe nossos desejos e posturas. Por mais que seja quase impossível escapar das forças do poder, devemos procurar a libertação dessas correntes sociais que nos limitam como indivíduos sociais. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

BOX//IMG: 03

Coletânea de imagens que inspiram, classificam, colorem, emplastificam, e outras ações.







(fonte: Tumblr)

Ensaio sobre “Identidades”, Kaboom e uma psicodélica jornada.

O que será que nos dá direito de insultar a/o outra/o? Quais seriam as convenções de gênero e quais normas nos apresentariam fundamentos suficientes para classificar cada (e todo) indivíduo em uma gaveta estereotipada e lacrada? A Teoria Queer apresenta um olhar crítico sobre as normas e a convenção de gêneros que exercem poder, permitindo o processo classificatório cruel que em seguida gera o ‘direito de punir’. Estudar este processo é muito importante, “seja daquele que rejeitado e aprendeu que não era normal, seja de quem adotou às normas e se inseriu socialmente de uma maneira mais fácil”. (MISKOLCI, 2012, p. 37) 

Quais seriam essas classificações e onde se iniciaria esse processo tão cruel ao indivíduo? Em “Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças” o sociólogo Richard Miskolci (2012) nos apresenta a ideia, inicialmente observada pelo sociólogo Erving Goffman nos meados do século XX, de que na escola, durante o processo de normalização, entraríamos em contato pela primeira vez com a sociedade e suas demandas aonde esses ideais coletivos começam a aparecer como imposições. Tendo em vista o cenário escolar podemos associar estas questões ao longa-metragem Kaboom, do diretor e roteirista Gregg Araki participante do Novo Movimento de Cinema Queer de 1990. Trabalhando a anormalização do considerado normal, Kaboom desenvolve a abjeção do heteronormativo, da transformação de um extremo ao outro e no intermediário (o indeciso). 


Os personagens de Kaboom aparentam características estereotipadas sobre gêneros sexuais. Temos o másculo heterossexual, o desajustado afeminado homossexual e outras identidades sociais oclusas e brutas, porém não existe dualidade no conteúdo dos personagens. Não há preto e branco na essência dos personagens de Gregg Araki e sim vários tons de cinza. Ninguém em Kaboom é inteiramente heterossexual/homossexual. 

Smith  e London, interpretados por Thomas Dekker e Juno Temple respectivamente.

O protagonista Smith tem uma postura de uma falsa liberdade onde o mesmo afirma “não acreditar em classificações sexuais padronizadas” mas suas atitudes contradizem o seu discurso; Smith é descrito como “ambisexual” (ambiguossexual em tradução livre). Em contraponto com essas “complicações discursivas” de Smith, temos London que surge para expressar ao protagonista que “a vida não precisa ser complicada, muito menos o sexo”. Liberta de posturas firmes ou discursos fechados, London é a personagem que transita livremente pelas classificações normativas e anormativas; ela afirma que “hetéros são mais gays que os próprios gays. O fato deles estarem apaixonados uns pelos outros e não poderem chupar o pau do outro os faz agir mais bichas* que Clay Aiken**” e sempre está disposta a apresentar supostas pesquisas que comprovam a falha nas classificações estereotipadas e cruéis que convivemos diariamente. 


Há um interessante olhar em Kaboom que descontrói a visão monocromática das ordens arquitetônicas que constroem os gêneros de maneira rígida. Esse olhar nos aproxima do “mundo heterossexual” que, de tão perto visto de fora de sua orbita, não parece ser “hetero” o quanto pregam seus participantes. O fato de estranharmos visões tão firmes sobre sexualidade quando vistas de tão perto nos esclarece que muitas vezes associamos sexualidade apenas com relações sexuais, porém “sexualidade também envolve desejo, afeto, autocompreensão e até a imagem que os outros têm de nós.” (MISKOLCI, 2012, p. 39) 

Vemos a sexualidade como uma parte intima de nós mesmos, muitas vezes até secreta, por isso quando confrontados (ou quando presenciamos outros sendo confrontados) tendemos a nos vigiarmos mais e nos vemos intimidados pela ordem social que impõe que nossa sexualidade deve ser tratada há sete chaves, silenciada e ilegítima. 

Thor, interpretado por Chris Zylka.

Thor, colega de quarto de Smith, ilustra perfeitamente esse pensamento. O personagem seria a personificação do “machão heterossexual”. Ignorante, pegador e de personalidade escancarada, bruta, que pratica brincadeiras de luta só de cueca som seu melhor amigo (também machão heterossexual) Rex. Extremamente preocupado com sua aparência, Thor se aventura com seu próprio corpo quando expressa sua vontade de praticar sexo oral em si mesmo e afirma já ter provado seu próprio sêmen; “Que não é ruim e tem um gosto abaunilhado” ele diz. E ilustrando o olhar cotidiano que nos vigia e pune, sempre disposto a nos inspecionar de maneira minuciosa de forma rígida e até íntima (FOUCAULT, 1926), podemos classificar o misterioso grupo mascado com cabeças de animais de plástico. Sempre presentes e infiltrados nas rotinas dos personagens, disponíveis a acabar com qualquer um que ameace à ordem. 

Integrantes da "Nova Ordem", culto secreto que persegue o protagonista Smith durante todo o filme.


Podemos concluir com a frase “de perto ninguém é normal”, porque talvez este normal não exista e seja apenas uma falha classificação limitada do que realmente podemos ser ou nos tornar. 




_______________________________________________________________________________________________________________________

* “bicha” está relacionada a “queer” que também é utilizado como xingamento na língua inglesa 
** Clay Aiken é um cantor americano, ator, escritor e ativista dos direitos gays, que atingiu a fama ao participar do reality show ’American Idol’ em 2003. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

BOX//IMG: 02

Coletânea de imagens que inspiram, problematizam, gritam, dançam, e outras ações.






(Fonte: Tumblr)

Ensaio sobre Grey Gardens, o Excêntrico e o Fascinante.

O termo “Queer” é bastante relacionado à comunidade LGBT’s, com razão, pois há uma conexão com o significado original da palavra, mas a palavra em si abrange um campo maior de pessoas. Queer tem como essência em seu significado tudo aquilo que é estranho, esquisito, o que é excêntrico. A autora Guacira Lopes Louro consegue expressar perfeitamente o que o termo representa na introdução de seu livro “Um Corpo Estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer”  quando diz que Queer é... “O excêntrico que não deseja ser ‘integrado’ e muito menos ‘tolerado’. Queer é um sujeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia  as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do ‘entre lugares’, do indecidível.” (2003, pg. 7)

Muitas pessoas acabam por ter uma visão muito limitada do que “Queer” simboliza, e do que pode chegar a ser. O termo vai muito mais além do sujeito com “sexualidade desviante” (Louro, 2003), também pode ser considerado como adjetivo para indivíduos com comportamento que foge da norma, ou verbo para a ação de transviar algo do comum para o dissemelhante. 


O filme Grey Gardens conta a história sobre a vida de Edith Bouvier Beale (Little Edie) interpretada por Drew Barrymore e sua mãe Edith Ewing Bouvier (Big Edie) interpretada pela Jessica Lange, prima e tia de Jacqueline Kennedy. Usarei o longa-metragem, produzido em 2009 pela HBO, como elemento visual para um estudo do termo Queer em analogia ao filme.

Na trama, Little Edie e Big Edie são mulheres do Jet Set da época (Termo jornalístico utilizado nos anos 40 e 50 que simbolizava pessoas com alto poder aquisitivo) que viviam esbanjando dinheiro com festas, roupas caras e todos os tipos de mordomias que tinham ao seu alcance. Little Edie sonhava em ser uma estrela da Broadway e mostra o seu talento ao grande público nova-iorquino. Já sua mãe, Big Edie, não ansiava nada além do luxuoso conforto de sua mansão, suas aulas de pianos privadas e os eventos que constantemente promovia na residência. 


Ambas não pretendiam largar seus ideais (construídos por uma visão normatizada de vida perfeita) por nada. Little Edie alcançaria o Sonho Americano de se tornar uma estrela, e Big Edie continuaria a flertar com o dinheiro e os caros champanhes.  

Um bom exemplo de quiridade é o comportamento da personagem de Drew Barrymore que, em plenos anos 60, se impõe contra a ideia de casar jovem para viver de um dote de um marido. Também existe um desejo da jovem de se impor aos homens, demonstrando uma diferenciação de comportamento aonde uma menina não poderia ser tão extrovertida e esperta. Para a época, Little Edie se apresentava fora da norma, mas ao mesmo tempo indecisa sobre agradar sua mãe e casar-se ou viver seus sonhos e aventuras por mais que fossem considerados errados, por tanto se encontrava “indecisa”, entre a norma e não incomum.


Nos anos 70, devido à separação de Edith Ewing Bouvier de seu marido e a escassez de suas finanças, ambas se encontram presas na mansão Grey Gardens. Vivendo entre pilhas e pilhas de entulho e vários pequenos animais. Little Edie já está sem cabelos por consequência de uma doença e sua mãe está velha, precisando de toda a assistência de sua filha. Convidadas por dois cineastas, elas concordam em protagonizar um documentário que pretende contar a rotina de suas vidas no cinema.

Para as duas, a rotina da casa seguia um ritmo comum. O entulho e os diversos animais que enfestavam o lugar eram apenas detalhes cotidianos. Elas acordavam, alimentavam todos os gatos, tomavam o café da manhã, se vestiam com suas melhores roupas e continuavam o resto do dia. Aos olhares de outros, a situação poderia parecer caótica, errônea, ou até mesmo inaceitável, mas nada as convencia que havia algo de errado com seu estilo de vida. Elas não se importavam, pois o incomum para os outros, era excêntrico e glamoroso para as duas.


 Well, mother and I are very entertaining, that’s true” respondeu Little Edie sobre a proposta de protagonizar o documentário.

Excêntricas, vivam como se todos os acontecimentos fossem um grande evento de abertura da Broadway.  Saiam para o jardim tomar chá com casacos de peles e roupas de gala. Não se importavam com o contraste da visão de uma vida de estrelas com a casa caindo aos pedaços. Nelas não existia um desejo de se encaixar na norma, não existia o esquisito e elas não queriam ser integradas, por que já eram parte de uma vida fantástica e requintada. Assim como todos os indivíduos categorizados como Queers (ou quirizados).

Recomendo o filme para quem aprecia uma boa produção com uma história fantástica. Os contrastes apresentados no filme, baseado em um documentário de mesmo nome exibido em 1975, expressam de maneira fabulosa o ‘meio-termo’, o desviante e o estranho. Engraçado, simpático e cativante, uma apresentação fascinante do incomum.   

"Uma vida real é muitas vezes a vida que a pessoa não leva"  –  Oscar Wilde
(Fonte das Imagens – Fonte sobre o filme Grey Gardens)