quarta-feira, 16 de maio de 2012

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Coletânea de imagens que inspiram, problematizam, gritam, dançam, e outras ações.






(Fonte: Tumblr)

Ensaio sobre Grey Gardens, o Excêntrico e o Fascinante.

O termo “Queer” é bastante relacionado à comunidade LGBT’s, com razão, pois há uma conexão com o significado original da palavra, mas a palavra em si abrange um campo maior de pessoas. Queer tem como essência em seu significado tudo aquilo que é estranho, esquisito, o que é excêntrico. A autora Guacira Lopes Louro consegue expressar perfeitamente o que o termo representa na introdução de seu livro “Um Corpo Estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer”  quando diz que Queer é... “O excêntrico que não deseja ser ‘integrado’ e muito menos ‘tolerado’. Queer é um sujeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia  as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do ‘entre lugares’, do indecidível.” (2003, pg. 7)

Muitas pessoas acabam por ter uma visão muito limitada do que “Queer” simboliza, e do que pode chegar a ser. O termo vai muito mais além do sujeito com “sexualidade desviante” (Louro, 2003), também pode ser considerado como adjetivo para indivíduos com comportamento que foge da norma, ou verbo para a ação de transviar algo do comum para o dissemelhante. 


O filme Grey Gardens conta a história sobre a vida de Edith Bouvier Beale (Little Edie) interpretada por Drew Barrymore e sua mãe Edith Ewing Bouvier (Big Edie) interpretada pela Jessica Lange, prima e tia de Jacqueline Kennedy. Usarei o longa-metragem, produzido em 2009 pela HBO, como elemento visual para um estudo do termo Queer em analogia ao filme.

Na trama, Little Edie e Big Edie são mulheres do Jet Set da época (Termo jornalístico utilizado nos anos 40 e 50 que simbolizava pessoas com alto poder aquisitivo) que viviam esbanjando dinheiro com festas, roupas caras e todos os tipos de mordomias que tinham ao seu alcance. Little Edie sonhava em ser uma estrela da Broadway e mostra o seu talento ao grande público nova-iorquino. Já sua mãe, Big Edie, não ansiava nada além do luxuoso conforto de sua mansão, suas aulas de pianos privadas e os eventos que constantemente promovia na residência. 


Ambas não pretendiam largar seus ideais (construídos por uma visão normatizada de vida perfeita) por nada. Little Edie alcançaria o Sonho Americano de se tornar uma estrela, e Big Edie continuaria a flertar com o dinheiro e os caros champanhes.  

Um bom exemplo de quiridade é o comportamento da personagem de Drew Barrymore que, em plenos anos 60, se impõe contra a ideia de casar jovem para viver de um dote de um marido. Também existe um desejo da jovem de se impor aos homens, demonstrando uma diferenciação de comportamento aonde uma menina não poderia ser tão extrovertida e esperta. Para a época, Little Edie se apresentava fora da norma, mas ao mesmo tempo indecisa sobre agradar sua mãe e casar-se ou viver seus sonhos e aventuras por mais que fossem considerados errados, por tanto se encontrava “indecisa”, entre a norma e não incomum.


Nos anos 70, devido à separação de Edith Ewing Bouvier de seu marido e a escassez de suas finanças, ambas se encontram presas na mansão Grey Gardens. Vivendo entre pilhas e pilhas de entulho e vários pequenos animais. Little Edie já está sem cabelos por consequência de uma doença e sua mãe está velha, precisando de toda a assistência de sua filha. Convidadas por dois cineastas, elas concordam em protagonizar um documentário que pretende contar a rotina de suas vidas no cinema.

Para as duas, a rotina da casa seguia um ritmo comum. O entulho e os diversos animais que enfestavam o lugar eram apenas detalhes cotidianos. Elas acordavam, alimentavam todos os gatos, tomavam o café da manhã, se vestiam com suas melhores roupas e continuavam o resto do dia. Aos olhares de outros, a situação poderia parecer caótica, errônea, ou até mesmo inaceitável, mas nada as convencia que havia algo de errado com seu estilo de vida. Elas não se importavam, pois o incomum para os outros, era excêntrico e glamoroso para as duas.


 Well, mother and I are very entertaining, that’s true” respondeu Little Edie sobre a proposta de protagonizar o documentário.

Excêntricas, vivam como se todos os acontecimentos fossem um grande evento de abertura da Broadway.  Saiam para o jardim tomar chá com casacos de peles e roupas de gala. Não se importavam com o contraste da visão de uma vida de estrelas com a casa caindo aos pedaços. Nelas não existia um desejo de se encaixar na norma, não existia o esquisito e elas não queriam ser integradas, por que já eram parte de uma vida fantástica e requintada. Assim como todos os indivíduos categorizados como Queers (ou quirizados).

Recomendo o filme para quem aprecia uma boa produção com uma história fantástica. Os contrastes apresentados no filme, baseado em um documentário de mesmo nome exibido em 1975, expressam de maneira fabulosa o ‘meio-termo’, o desviante e o estranho. Engraçado, simpático e cativante, uma apresentação fascinante do incomum.   

"Uma vida real é muitas vezes a vida que a pessoa não leva"  –  Oscar Wilde
(Fonte das Imagens – Fonte sobre o filme Grey Gardens)

domingo, 13 de maio de 2012

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Coletânea de imagens que inspiram, problematizam, falam, esfregam, e outras ações.







(Fonte: Tumblr)

Ensaio sobre Abjetos, Matthew Barney e Todos Nós.

Parece existir uma cerca elétrica que envolve todos os indivíduos que aceitam, aparentemente, normas instituídas pelos regimes de poder (discutidas por Foucault e nas quais falarei em um próximo ensaio). Não se pode atravessar ou viajar entre os campos das normas, que já somos obrigados a participar ou nos adaptar, e as “anti-normas”, pois o risco da categorização de inumano, inviável, o abjeto, é iminente.   Porque é necessária uma adjetivação do que é ou não abjeto e não o término da heteronormatividade ditadora? 

O indivíduo classificado como abjeto parece não fazer parte de uma mesma região de convivência que os demais normatizados, porém essa exclusão é cega e banal. Para que essa exclusão tenha um fim e encontremos uma equidade, é preciso legitimar a existência dessa normatividade que constrói a categoria de abjeto. Judith Butler em entrevista a Revista Estudos Feministas declara “o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas 'vidas' e cuja materialidade é entendida como ''não importante'.” (Rev. Estud. Fem. vol.10 no.1 Florianópolis Jan. 2002).

Para entender melhor o status de abjeto, farei analogia ao trabalho do artista contemporâneo americano Matthew Barney. 



Matthew Barney ressalta de maneira poética um gênero hibrido em seu trabalho “The Cremaster Cycle”, uma série de cinco filmes que misturam mitos celtas, cultura maçônica, arcanas biológicas em um clima de thriller musical. 

A identidade dos indivíduos que o artista cria apresenta-se como humanamente inviável; como por exemplo Greenman, de “De Lama Lâmina”, com formação parte humano, parte planta. Podemos imaginar também, sem ir muito ao imaginário surrealista, outros exemplos de abjetos mais “familiares” como as drags, os travestis, intersexos, homossexuais e transgêneros. Figuras que não se encaixam nas normas binárias e lineares instituídas como naturais, forçando-as a obrigatoriamente adaptarem-se, mesmo que impossível. 

Em ‘Cremaster 3’ Barney trabalha com a ideia de um corpo autocontido, quase normatizado, que após ser capturado é transformado em uma forma híbrida. Também há a representação do corpo marginalizado, o mutável, o menos humano e deformado, simbolizado por uma espécie metade mulher metade onça pintada. As metáforas apresentadas em todo o ciclo do Cremaster mostram uma transviação da norma, um poder de mutação, aonde ele trabalha com o controle, a disciplina e a transgressão dos limites do corpo. (Verônica Cordeiro, 2004) 


Esses conceitos podem ser apresentados nos corpos caricatos dos homens que atravessam a linha do másculo, o forte e musculoso, e acabam por perder a essência previamente desejada e inspirada por uma imagem heteronormatizada, construída apenas conceitualmente a partir de uma paródia de um gênero também construído apenas, também, de forma conceitual – mesmo assim aplicada como única e natural – ( Judith Butler, 1990). E o que dizer da descaracterização do feminino, levado aos extremos por mulheres que se transformam em “super-corpos femininos” plastificados com próteses utilizadas para avultar características de um corpo fêmea-feminino, que na tentativa de se encaixar na heteronormatividade acaba por transpor-se em abjeto. 

Não será um espanto quando acordarmos e percebermos que fazemos parte de uma abjetivação, por mais que participemos de uma normatividade heterossexual construída de modelos sem essência natural. Para que se possa deixar de lado a adjetivação de gêneros como naturais, é preciso problematizar e enfatizar essa heteronormativade controladora dos nossos corpos; repressora, que nos distancia de uma equidade e liberdade de performar com nossos corpos das diversas maneiras possíveis. É preciso que notemos as normas que nos limitam e, de vez, tomemos posse de nossos corpos e para que seja possível viver a contemporaneidade metaforizada por Matthew Barney em seus filmes, e que tanto desejamos e precisamos.