Parece existir uma cerca elétrica que envolve todos os indivíduos que aceitam, aparentemente, normas instituídas pelos regimes de poder (discutidas por Foucault e nas quais falarei em um próximo ensaio). Não se pode atravessar ou viajar entre os campos das normas, que já somos obrigados a participar ou nos adaptar, e as “anti-normas”, pois o risco da categorização de inumano, inviável, o abjeto, é iminente. Porque é necessária uma adjetivação do que é ou não abjeto e não o término da heteronormatividade ditadora?
O indivíduo classificado como abjeto parece não fazer parte de uma mesma região de convivência que os demais normatizados, porém essa exclusão é cega e banal. Para que essa exclusão tenha um fim e encontremos uma equidade, é preciso legitimar a existência dessa normatividade que constrói a categoria de abjeto. Judith Butler em entrevista a Revista Estudos Feministas declara “o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas 'vidas' e cuja materialidade é entendida como ''não importante'.” (Rev. Estud. Fem. vol.10 no.1 Florianópolis Jan. 2002).
Para entender melhor o status de abjeto, farei analogia ao trabalho do artista contemporâneo americano Matthew Barney.

Matthew Barney ressalta de maneira poética um gênero hibrido em seu trabalho “The Cremaster Cycle”, uma série de cinco filmes que misturam mitos celtas, cultura maçônica, arcanas biológicas em um clima de thriller musical.
A identidade dos indivíduos que o artista cria apresenta-se como humanamente inviável; como por exemplo Greenman, de “De Lama Lâmina”, com formação parte humano, parte planta. Podemos imaginar também, sem ir muito ao imaginário surrealista, outros exemplos de abjetos mais “familiares” como as drags, os travestis, intersexos, homossexuais e transgêneros. Figuras que não se encaixam nas normas binárias e lineares instituídas como naturais, forçando-as a obrigatoriamente adaptarem-se, mesmo que impossível.
Em ‘Cremaster 3’ Barney trabalha com a ideia de um corpo autocontido, quase normatizado, que após ser capturado é transformado em uma forma híbrida. Também há a representação do corpo marginalizado, o mutável, o menos humano e deformado, simbolizado por uma espécie metade mulher metade onça pintada. As metáforas apresentadas em todo o ciclo do Cremaster mostram uma transviação da norma, um poder de mutação, aonde ele trabalha com o controle, a disciplina e a transgressão dos limites do corpo. (Verônica Cordeiro, 2004)

Esses conceitos podem ser apresentados nos corpos caricatos dos homens que atravessam a linha do másculo, o forte e musculoso, e acabam por perder a essência previamente desejada e inspirada por uma imagem heteronormatizada, construída apenas conceitualmente a partir de uma paródia de um gênero também construído apenas, também, de forma conceitual – mesmo assim aplicada como única e natural – ( Judith Butler, 1990). E o que dizer da descaracterização do feminino, levado aos extremos por mulheres que se transformam em “super-corpos femininos” plastificados com próteses utilizadas para avultar características de um corpo fêmea-feminino, que na tentativa de se encaixar na heteronormatividade acaba por transpor-se em abjeto.

Não será um espanto quando acordarmos e percebermos que fazemos parte de uma abjetivação, por mais que participemos de uma normatividade heterossexual construída de modelos sem essência natural. Para que se possa deixar de lado a adjetivação de gêneros como naturais, é preciso problematizar e enfatizar essa heteronormativade controladora dos nossos corpos; repressora, que nos distancia de uma equidade e liberdade de performar com nossos corpos das diversas maneiras possíveis. É preciso que notemos as normas que nos limitam e, de vez, tomemos posse de nossos corpos e para que seja possível viver a contemporaneidade metaforizada por Matthew Barney em seus filmes, e que tanto desejamos e precisamos.
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