O termo “Queer” é bastante
relacionado à comunidade LGBT’s, com razão, pois há uma conexão com o
significado original da palavra, mas a palavra em si abrange um campo maior de
pessoas. Queer tem como essência em seu significado tudo aquilo que é estranho,
esquisito, o que é excêntrico. A autora Guacira Lopes Louro consegue expressar
perfeitamente o que o termo representa na introdução de seu livro “Um Corpo
Estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer” quando diz que Queer é... “O excêntrico que não deseja ser ‘integrado’ e muito menos ‘tolerado’.
Queer é um sujeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como
referência; um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que
assume o desconforto da ambiguidade, do ‘entre lugares’, do indecidível.” (2003, pg. 7)
Muitas pessoas acabam por ter uma
visão muito limitada do que “Queer” simboliza, e do que pode chegar a ser. O
termo vai muito mais além do sujeito com “sexualidade desviante” (Louro, 2003), também pode ser considerado como adjetivo para indivíduos com comportamento que foge da norma, ou verbo para a ação de transviar algo do comum para o dissemelhante.
O filme Grey Gardens conta a
história sobre a vida de Edith Bouvier Beale (Little Edie) interpretada
por Drew Barrymore e sua mãe Edith Ewing Bouvier (Big Edie) interpretada
pela Jessica Lange, prima e tia de Jacqueline
Kennedy. Usarei o longa-metragem, produzido em 2009 pela HBO, como elemento
visual para um estudo do termo Queer em analogia ao filme.
Na trama, Little Edie e Big Edie são mulheres do Jet Set da época (Termo jornalístico utilizado nos anos 40 e 50 que simbolizava pessoas com alto poder aquisitivo) que viviam esbanjando dinheiro com festas, roupas caras e todos os tipos de mordomias que tinham ao seu alcance. Little Edie sonhava em ser uma estrela da Broadway e mostra o seu talento ao grande público nova-iorquino. Já sua mãe, Big Edie, não ansiava nada além do luxuoso conforto de sua mansão, suas aulas de pianos privadas e os eventos que constantemente promovia na residência.

Ambas não pretendiam largar seus
ideais (construídos por uma visão normatizada de vida perfeita) por nada.
Little Edie alcançaria o Sonho Americano de se tornar uma estrela, e Big Edie
continuaria a flertar com o dinheiro e os caros champanhes.
Um bom exemplo de quiridade é o
comportamento da personagem de Drew Barrymore que, em plenos anos 60, se impõe
contra a ideia de casar jovem para viver de um dote de um marido. Também existe
um desejo da jovem de se impor aos homens, demonstrando uma diferenciação de
comportamento aonde uma menina não poderia ser tão extrovertida e esperta. Para
a época, Little Edie se apresentava fora da norma, mas ao mesmo tempo indecisa
sobre agradar sua mãe e casar-se ou viver seus sonhos e aventuras por mais que
fossem considerados errados, por tanto se encontrava “indecisa”, entre a norma
e não incomum.

Nos anos 70, devido à separação
de Edith Ewing Bouvier de seu marido e a escassez de suas finanças, ambas se
encontram presas na mansão Grey Gardens. Vivendo entre pilhas e pilhas de
entulho e vários pequenos animais. Little Edie já está sem cabelos por consequência
de uma doença e sua mãe está velha, precisando de toda a assistência de sua
filha. Convidadas por dois cineastas, elas concordam em protagonizar um
documentário que pretende contar a rotina de suas vidas no cinema.
Para as duas, a rotina da casa
seguia um ritmo comum. O entulho e os diversos animais que enfestavam o lugar
eram apenas detalhes cotidianos. Elas acordavam, alimentavam todos os gatos,
tomavam o café da manhã, se vestiam com suas melhores roupas e continuavam o
resto do dia. Aos olhares de outros, a situação poderia parecer caótica, errônea,
ou até mesmo inaceitável, mas nada as convencia que havia algo de errado com
seu estilo de vida. Elas não se importavam, pois o incomum para os outros, era excêntrico
e glamoroso para as duas.

“Well, mother and I are very entertaining, that’s true” respondeu Little Edie sobre a proposta de protagonizar o documentário.

Excêntricas, vivam como se todos
os acontecimentos fossem um grande evento de abertura da Broadway. Saiam para o jardim tomar chá com casacos de
peles e roupas de gala. Não se importavam com o contraste da visão de uma vida
de estrelas com a casa caindo aos pedaços. Nelas não existia um desejo de se
encaixar na norma, não existia o esquisito e elas não queriam ser integradas, por
que já eram parte de uma vida fantástica e requintada. Assim como todos os indivíduos
categorizados como Queers (ou quirizados).
Recomendo o filme para quem
aprecia uma boa produção com uma história fantástica. Os contrastes apresentados
no filme, baseado em um documentário de mesmo nome exibido em 1975, expressam
de maneira fabulosa o ‘meio-termo’, o desviante e o estranho. Engraçado, simpático
e cativante, uma apresentação fascinante do incomum.

"Uma vida real é muitas vezes a vida que a pessoa não leva" – Oscar Wilde

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