Existem diversas maneiras em que o poder (poder que controla, vigia e pune, que define quem e como devemos agir) exercer sua presença sobre nós. A maneira mais eficiente é atingindo nossa intimidade através da sexualidade. Ao alcança-la o poder consegue agir de maneira mais eficaz, podem aplicar facilmente suas exigências e, caso não sejam atendidas, suas cruéis penitências. Segundo Richard Miskolci explica porque o poder escolhe a sexualidade como meio de vigiar (e normatizar) as pessoas:
“A sexualidade envolve desejo, afeto, autocompreensão e até a imagem que os outros têm de nós. A sexualidade tende a ser vista, por cada um de nós, como nossa própria intimidade, a parte mais reservada, às vezes até secreta, de nosso eu. Assim, não surpreende que a sociedade tenha encontrando nela um meio de normalizar as pessoas.” (2012, p. 39)
Mas como o poder alcança o íntimo? Segundo Foucault (1926) o poder produziria uma saturação da sexualidade, oferecendo e incentivando suas diversas formas de desejo para que suas variedades se intensifiquem junto ao poder em si. Um dos meios que essa máxima saturação é produzida é o mercado de filmes pornôs. A venda de uma “hiper” prática do sexo, onde os desejos se tornam possibilidades (mais) reais e os corpos perfeitos desempenhariam com ciência todos os atos necessários para alcançar a realização, a satisfação do(s) indivíduo(s).
O fotógrafo Ken Probst publicou em 1998 o livro “pôr´ne-graf´ik”, nele uma série de fotografias no estilo documental exibia os bastidores do cinema pornô-gay. O diferencial das fotografias é que, ao invés de intensificar o mundo da pornografia, os registros revelavam os verdadeiros acontecimentos das produções.
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| Visão completa do complexo set de filmagem. A imagem retira a falsa sensação de intimidade que a prática do (hiper) ato sexual apresenta nas produções pornográficas. |
As fotografias apresentam cenas até cômicas dos sets de filmagens. Nelas podemos relacionar como o sexo se tornou uma produção industrial que, graças ao seu apelo intimista, funciona como ferramenta direta para a ação de atrair-intensificar-vigiar-punir.
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| Cena de close onde apenas o ator em pé desempenha seu papel enquanto o companheiro de trabalho espera sua parte na produção. |
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| Contrarregra esperando pacientemente o começo/fim das filmagens, visivelmente cansado e/ou entendiado. |
A indústria pornográfica não seria mais nada além de outra produção como qualquer outra, sempre a favor do desejo e, assim, da normalização das pessoas. Mesmo que as produções fossem carregadas de fetiches, ações hiper-realistas e sexualidades anormais. Não existiria uma função aplicada do desejo e sim uma representação do mesmo, facilitando assim uma “cilada” para aqueles que se sentem abjetificados.
Os contrarregras, os ajudantes de filmagem, os câmeras, os produtores e até os atores executam apenas suas funções como empregados/empregadores. De acordo com a demanda, as produções partiram de suas premissas individuais, e nada além de uma produção mercantil.
O poder, então, não poupa as mais diversas possibilidades para se impuser aos indivíduos. O poder “produz e fixa o despropósito sexual. A sociedade moderna é perversa, não a despeito de seu puritanismo ou como reação à sua hipocrisia: é perversa real e diretamente.” (FOUCAULT, 1926, p. 47)




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