O artista contemporâneo Robert Gober é um dos artistas mais importantes vivos atualmente. Ele se tornou conhecido por suas grandes instalações com objetos cotidianos revisitados. Seu trabalho se apresenta de forma misteriosa que quando desvendadas descarregam questões politicas, sexualidade, natureza e religião.
Dentro de suas instalações encontramos esculturas, objetos, e outras produções intrigantes. Sempre excitando o olhar do espectador para a descoberta de questionamentos e ideias que atingem o íntimo e incomodam. Há uma série de trabalhos que podemos relacionar com as mais diversas questões, mas a utilização (e a desconstrução) dos objetos cotidianos pode causar um estranhamento maior àqueles que presenciam as obras de Gober, facilitando a vontade de saber sobre os porquês e suas respostas.
A série de pias de banheiro de Gober trabalha com diversas variações do um objeto tão comum aos indivíduos. Sempre presente nos banheiros, privados ou públicos, estamos sempre em contato com sua existência, mas o que poderia ser diferente se considerarmos a pia de banheiro como um ícone de sexualidade?
Michael Foucault (1926, p. 39) nos apresenta ao termo “sexualidades periféricas” que seriam as sexualidades que se distanciam da sexualidade regular, (hetero) normatizada. Qualquer um que estiver em uma relação fora do “homem heterossexual + mulher heterossexual” se classificaria como adverso e ilegítimo. Gober apresenta um objeto diverso, mas ele representaria? Quem seriam essas pessoas que utilizariam essas pias? E qual é o seu gênero, seu sexo, seus desejos, suas práticas? Quem se “encaixaria” em algo tão esquisito?
Esse ato definir o que algo é também tem forte influência na construção do individuo antes mesmo de que o mesmo venha a nascer. As limitações e expectativas são impostas com tanto rigor que toda a trajetória de vida, suas experiências, suas preferencias e seu destino final vêm de uma premissa rígida que deve ser cumprida a qualquer custo.
A série de cercadinhos de Gober transporta-nos para um ambiente onde o processo de limitação e construção do corpo da recém-individua nas medidas adequadas. Quando perguntamos se o bebê é “menino ou menina?” ou quando afirmamos “é uma menina!” exaltamos diversas expectativas sobre a conduta sexual, sobre o gênero e outras características que não poderíamos exigir serem cumpridas. Guacira Lopes Louro diz (2004, p. 15 apud Judith Butler, 1993) “Judith Butler argumenta que essa asserção desencadeira todo um processo de ‘fazer’ desse corpo feminino ou masculino. [...] Afirma-se e reitera-se uma sequência de muitos modos já consagrada, a sequência sexo-gênero-sexualidade.”
Quem seriam essas crianças, "o que se tornariam" e te tipo de contrato social elas estariam "assinando" em seus berços retorcidos? As regras, o contrato previsto, supostamente não deixariam brecha para uma escolha, um conhecer verdadeiro liberto de olhares julgadores. Porém e caso o indivíduo não siga suas obrigações, desafie as normas e fuja do eixo comum de sexo-gênero-sexualidade? Como podemos representar no cercadinho aberto, socialmente, Louro (2004) nos alerta que a este individuo só cabem punições, sanções e exclusões.






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