terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ensaio sobre Um Bonde Chamado Desejo, metáforas e perversões.

Ao longo da história do cinema encontramos diversos personagens que nos parecem, familiarmente, estranhos. Em “A Streetcar Named Desire” (Um Bonde Chamado Desejo, mas chamado no Brasil de "Uma Rua Chamada Pecado") de 1951 Blanche DuBois se muda para morar com a irmã e o cunhado onde ela acaba por se perder em um furacão de emoções enquanto a realidade se torna mais confusa aos seus olhos. 


Existem relações no filme que subentendem conteúdos direcionados para um público não declarado, oculto e tido como incomum, o espectador homossexual. Desde a representação às formas de desejo, A Streetcar Named Desire oferece um vasto conteúdo semântico para conexões ao considerado incomum, desprezível e digno de imparcialidade ou ódio. 

Uma dessas representações se dá pelo personagem de Marlon Brando, Stanley. Sempre em conflito com a protagonista, Stanley é uma representação clara de um “objeto de sexualidade”, um incitador de desejo e emoções (tanto para a personagem Blanche DuBois tanto para o espectador). Existe uma realização do homem ideal, másculo e forte, que ao contrário da protagonista, feminina e fantasiosa, se obtém da tarefa insinuante do despertar sexual, de torna-se atraente às aqueles que se veem capturados pelo desejo. Desejo pela força, pela figura hiper-masculina de Marlon Brando, sempre disposta a enfrentar e mostrar quem é que manda, quem domina, quem é o macho forte, suado, sujo, impregnado pela virilidade, pela potencia e robustez do que chamamos ícone sexual de uma época no cinema. 


Essa representação é também utilizada pelo poder que age sobre a construção dos gêneros normativos. Michel Foucault nos apresenta em “História da Sexualidade” os meios pelo que o poder que nos controla se infiltra para se tornar mais eficaz. O poder que controla a sexualidade, o gênero e tantas outras peças dos indivíduos, se estende por si mesmo e se fortalece ao incitar a descoberta do “desejo proibido” para, através dele, possuir o individuo pelo julgamento de culpa; “O poder funciona como um mecanismo de apelação, atrai, extrai essas estranhezas pelas quais se desvela. O prazer se difunde através do poder cerceador e este fixa o prazer que acaba de desvendar”. (FOUCAULT, 1926, p. 45) 



A identificação ficaria pela personagem Blunche DuBois, que está sempre por desempenhar sua feminilidade. Ela pode ser considerada uma representação homossexual que não cabia ser apresentada de maneira crua no cinema da época, apenas insinuada e escondida. Os confrontos que a protagonista tem com Stanley representam bem as injurias que o homossexual afeminado recebe por desempenhar um gênero distorcido do heteronormativo. E, assim como imposto a mulher, o quanto mais perto do feminino mais desprezível seria o individuo. Isso está presente nas situações como quando Blanche é questionada sobre sua verdadeira identidade “como mulher” por seu envolvimento com um “jovem rapaz” que terminara em um final trágico devido a “descobertas” em que ambos passaram juntos e os fortes confrontos que elas causaram (podemos por em questão que essa descoberta seria o desejo homossexual e sua descoberta). Também vemos o desprezo com que ela é trata por Mitch, melhor amigo de Stanley, ao descobrir que Blanche não é “mais” mulher por seu passado sexual e sua idade “avançada” para tais aventuras. O fato de Blanche se por de forma extravagantemente afeminada, extremamente fantasiosa e, até certo ponto, firme em sua “performance de gênero”, acaba em entrando em conflito com o que é imposto pelo poder (Stanley sendo essa representação) onde o correto seria a forma “comportada”, um perfil de gênero esperado com desejo reprimido e conformista com as normas socialmente impostas. (MISKOLCI, 2012, p. 32). 


Precisamos, quando nos tornamos cientes dessas formas que o poder nos controla, questionar quais nossas verdadeiras vontades e quem realmente decide e/ou impõe nossos desejos e posturas. Por mais que seja quase impossível escapar das forças do poder, devemos procurar a libertação dessas correntes sociais que nos limitam como indivíduos sociais. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário